09 fevereiro 2009

Crianções vocabulares



Muito gostaria eu de ser tão talentosa com as palavras quanto o brilhante contista e romancista Mia Couto, que sempre me encanta com as suas "brincriações" vocabulares. Leio e releio os seus livros (o meu preferido é o Mar Me Quer) e, além de me maravilhar com os mundos fantásticos - dramáticos e ao mesmo tempo enternecedores - que ali se revelam, pasmo com a criatividade lexical do autor, que em cada linha nos oferece uma palavra inesperada, tão original quanto expressiva. E não posso deixar de sorrir perante um homem "aldrabom", uma mãe que se "atamanha" com o filho, um pai que "tesourou" a conversa, um rapaz "desatrevido" que se desfazia em "salamoleques".

Há poucos anos, porém, descobri que a incrível capacidade de Mia Couto pode ser encontrada nas crianças, se prestarmos atenção ao que elas dizem. Percebi que, bem vistas as coisas, todos nós temos esse dom maravilhoso para criar palavras perfeitamente compreensíveis e bem formadas, mas inteiramente novas, originais, únicas. O que acontece é que perdemos essa capacidade - como a de brincar, ou a de nos espantarmos perante o que vemos - à medida que vamos crescendo, até nos tornarmos adultos cinzentões, receosos de empregar termos que não existem.

Fiz essa descoberta prestando atenção às palavras que a minha filha começou a criar, por volta dos três anos, fazendo um uso perfeitamente lógico de processos de inovação lexical que, numa língua, permitem gerar novos termos: a prefixação, a sufixação e até a derivação regressiva. E fiquei maravilhada, ao analisar a estrutura das suas invenções. Palavras como a "pratagem" (conjunto de pratos), a "petisca" (acto de petiscar), o "agarramento" (acto de agarrar), "desaquecer" (arrefecer) e "cerejar" (comer cerejas) fizeram-me sorrir e sentir-me feliz, porque inventar palavras dá, eu sei que dá, imenso prazer. Um prazer simples e inocente a que, sem razão, nós, os crescidos, parecemos negar-nos.


Nota: assumo a minha frouxa tentativa de imitar Mia Couto no título: "crianções" serão as criações das crianças :)

1 comentário :

Nós disse...

É verdade, as crianças fazem-nos relembrar o quanto é engraçado inventar palavras.
O meu filho é pródigo em inventar palavras, a última foi: "entortalhado", o significado: torto+´baralhado. E esta, hein!!!